No intricado ballet bioquímico que governa nossos ciclos de vigília e repouso, a melatonina assume o papel de maestra do relógio biológico.
Produzida pela glândula pineal, uma pequena estrutura do tamanho de uma ervilha, localizada no centro do cérebro, este hormônio é a molécula que traduz a informação luminosa ambiental, em instruções fisiológicas compreensíveis para todo o organismo.
Em outras palavras, sua síntese e liberação são rigidamente controladas, pelo núcleo supraquiasmático do hipotálamo, o marcapasso central do nosso ritmo circadiano.
O gatilho mais potente para sua produção é a escuridão: quando a luz diminui ao final do dia, a produção de melatonina aumenta, atingindo seu pico entre 2h e 4h da manhã, para depois diminuir gradualmente com a aproximação do amanhecer.
Este sinal químico de “escurecer” desencadeia uma cascata de eventos no corpo: a temperatura corporal central diminui, a pressão arterial cai, o metabolismo desacelera e a sensação de sonolência aumenta, preparando-nos para um sono reparador.
Portanto, a melatonina não é um sedativo, mas sim um sincronizador endógeno, que alinha nossa fisiologia com o ciclo natural de dia e noite.
A importância da melatonina, no entanto, vai muito além de simplesmente induzir o sono. Ela é uma molécula pleiotrópica, com ações diversificadas em múltiplos sistemas orgânicos.
Descoberta em 1958, inicialmente pensava-se que sua função, se restringia à regulação do ciclo sono-vigília. Hoje sabemos que praticamente todas as células do corpo, possuem receptores para melatonina, e muitas são capazes de produzi-la localmente (melatonina extrapineal).
Isto revela seu papel como modulador sistêmico. No sistema imunológico, ela atua como um imunoestimulante e anti-inflamatório; no sistema reprodutivo, sincroniza os ritmos sazonais de fertilidade em muitas espécies; e no sistema cardiovascular, ajuda a regular a pressão arterial.
Surpreendentemente, a melatonina é também um potente antioxidante e neutralizador de radicais livres, capaz de proteger as células contra danos oxidativos, de maneira mais eficiente que a vitamina E ou glutationa.
Esta multifuncionalidade explica por que a qualidade do sono, e consequentemente, a produção adequada de melatonina, está tão intimamente ligada à saúde como um todo.
Mecanismos de ação e benefícios da melatonina na saúde
Os efeitos da melatonina, são mediados através da sua ligação a receptores específicos de membrana (MT1 e MT2) no cérebro e em tecidos periféricos, e também através de ações receptor-independentes no núcleo celular e mitocôndrias.
- Regulação do Sono: Ao ligar-se aos receptores MT1 e MT2 no núcleo supraquiasmático, a melatonina sinaliza o início do período de repouso fisiológico, reduzindo o estado de alerta e promovendo o início e a manutenção do sono.
- Ação Antioxidante Direta: A melatonina neutraliza radicais livres como o ânion superóxido e o radical hidroxila, e estimula a produção de enzimas antioxidantes como a glutationa peroxidase.
- Modulação Imunológica: Aumenta a produção de citocinas anti-inflamatórias (como a IL-10), e melhora a função das células imunes, como os linfócitos T.
- Regulação da Pressão Arterial: Tem um efeito vasodilatador suave, ajudando a reduzir a pressão arterial durante a noite (fenômeno do “dipping” noturno).
Aplicações terapêuticas e suplementação
A suplementação com melatonina é uma ferramenta valiosa, quando a produção endógena está comprometida ou desregulada.
Suas principais aplicações incluem:
- Insônia: Especialmente na dificuldade em iniciar o sono.
- Jet Lag: Ajuda a ressincronizar o relógio biológico, após viagens através de fusos horários.
- Trabalho por Turnos: Auxilia trabalhadores noturnos a adaptarem seus ciclos de sono-vigília.
- Distúrbio do Atraso da Fase do Sono: Condição em que o ciclo sono-vigília está cronicamente atrasado.
Considerações Práticas sobre a Suplementação:
- Dosagem: Doses baixas (0,3 a 5 mg) são geralmente eficazes. Mais não é necessariamente melhor.
- Timing: Deve ser tomada 30 a 60 minutos antes do horário desejado de dormir.
- Qualidade do Produto: Opte por marcas idôneas, pois a concentração real pode variar significativamente em produtos de baixa qualidade.
- Efeitos Adversos: Geralmente é bem tolerada, mas algumas pessoas podem experimentar sonolência diurna, dor de cabeça ou sonhos vívidos.
Estratégias para otimizar a produção natural de melatonina
Para a maioria das pessoas, otimizar a produção natural é preferível à suplementação:
- Exposição à Luz Natural Durante o Dia: A luz solar, especialmente pela manhã, fortalece o ritmo circadiano.
- Escuridão Total no Quarto: Use cortinas blackout e elimine fontes de luz artificial (como LEDs de aparelhos eletrônicos).
- Redução da Exposição à Luz Azul à Noite: Evite telas (celular, computador, TV) 1-2 horas antes de dormir ou use filtros de luz azul.
- Consumo de Alimentos Fontes de Triptofano e Melatonina: Nozes (especialmente nozes), cerejas, aveia, banana e leite.
Em resumo, a melatonina é muito mais do que um simples “hormônio do sono”. É um regulador central da cronobiologia humana, um antioxidante poderoso e um modulador imunológico.
Respeitar seu ciclo natural através de hábitos de vida saudáveis, é fundamental para a saúde a longo prazo, e sua suplementação criteriosa pode ser uma ferramenta valiosa, para restaurar o equilíbrio quando nosso relógio biológico se desregula.
Fontes:
Portal Drauzio Varella, Instituto AGF e Revista Interdisciplinar em Saúde em pdf




